A experiência estética dissonante de Sankai Juku em Meguri

Sem categoria julho 25, 2016 No Comments

Meguri Foto Sankai JukuMeguri, exuberância marinha, terra tranquila. Um mergulho visceral no humano demasiadamente humano. Uma experiência estética! Estive hoje em Meguri. Cheguei no teatro, entrei em Meguri, saí do teatro e, enquanto escrevo este post, continuo em estado de Meguri…por favor, não me segure! Em sua nova obra, Sankai Juku me guiou até o meu lado meio guria. Sentada na plateia com meus pais e meu marido, por momentos senti que não tinha quem me guiar. Estava só com meus augúrios, minhas dissonâncias. Sob um pano de fundo terroso, floral, dançam homens-aquáticos, carecas, pintados de branco. O branco como essa tela em branco que agora preencho de palavras, como a tela do pintor e suas pinceladas, o corpo branco onde podemos depositar nossas histórias por meio do gesto. Naquela água toda, o som de uma Índia me toca… O solo tranquilo onde a emoção pode de repente gritar, tremer, brotar, dançar. Homens-de-saia, seus corpos revelados sob vestidos de mulher, com brincos que pendem como flores de orelhas feridas de sangue. O que é isso? Que ser estranho é esse que se apresenta à nossa frente? Meguri nos coloca em contato com nossos conceitos e pré-conceitos. Especialmente em se falando de uma plateia Ocidental, a estranheza é maior. Se voltarmos na nossa História, podemos pensar em como essa relação com o oriente geralmente se dá. Um Oriente trazido a nós especialmente por uma Portugal. Quando se olha o Oriente, com que olhos se olha o Oriente? É importante pensar isso. A questão da hierarquia, por exemplo, um aspecto fundante da cultura oriental. De que forma usamos esse aspecto como forma de subjugar o outro? Uma forma limitada de ver o oriente, de usa-lo não como forma de admirar o outro, mas de domina-lo. Pois para os orientais, no contexto deles, a hierarquia, o respeito pelos mais velhos, a crença em algo maior, é muito mais amplo do que isso. Meguri é implacável em nos colocar em contato direto com nosso lado sombrio, nossos horrores internos, com a angústia e o intranquilo. Superado isso com serenidade, chega-se a um momento de quietude. Meguri abre nossos chakras, nossos canais vitais, numa terra tranquila onde de repente, não mais que de repente, é possível brotar a emoção! Incontrolável, linda, delicada e plena. Entregues nesse oceano de movimentos comoventes, o que importa agora é o humano desabrochando continuamente num jardim exuberante de gestos espiralados, na exuberância marinha desses seres que dançam o movimento sagrado de morte e vida. Oriente e Ocidente enfim lançam pontes um para o outro onde é possível navegar sem mais expectativas do que estar presente no agora, na plenitude do agora. A despedida numa intenção lenta, doce e profunda, uma marca do butô, é carregada de simbolismos, e um dos pontos altos da experiência estética em Meguri. Se num primeiro momento nos incomodamos com sons aflitivos, desconcertantes, positivamente mobilizantes, ao final agradecemos extasiados, boquiabertos, completamente entregues a esses nossos outros orientes. Meguri muito!

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