“A Última Estrada”: afortunada viagem por camadas de uma história dançada

Sem categoria junho 17, 2014 4 Comments

aultimaestrada_ciasoma_silviamachadoNa última quarta-feira, 11/6, tive o prazer de estar com Maria Eugênia Almeida e Marina Abib, intérpretes criadoras que formam a Cia Soma, para uma conversa sobre a sua mais recente criação, “A última estrada”. Fiquei sabendo do espetáculo pelo material que recebi no meu email convidando para assisti-lo no Sesc Consolação [apresentado em fins de maio, no Espaço Beta]. Mais tarde, sentada num café, li a resenha de Helena Katz no jornal Estadão. Um texto inspirado da crítica de dança e que de forma muito poética contava sobre o magnetismo dos gestos que Maria Eugênia Almeida e Marina Abib haviam criado para contar a história de um casal em sua jornada em direção ao mar. Foi uma lufada de dança naquela fria manhã de outono. Infelizmente, eu não poderia ir ao teatro naquele dia e fiquei a ver navios… Para minha sorte, porém, foi anunciada uma nova temporada do espetáculo no Instituto Brincante e eu prontamente me organizei para lá estar. Foi uma noite emocionante, uma oportunidade de ver bem de pertinho e por um novo ângulo o trabalho de duas jovens criadoras renascendo em pleno palco. Finalmente eu me encontrava com uma dança repleta de emoção… Ainda mais depois de ter tido a conversa que compartilho abaixo.
* Não esqueça, esse sábado (21/6), às 21h, é a última chance de conferir o espetáculo “A última estrada”. O Instituto Brincante fica na Rua Purpurina, 428, tel: 11 3816-0575. Ingressos por R$ 30,00 e R$ 15,00 (meia-entrada) – e quem garantir o bilhete até sexta-feira, paga meia.

Como surge a vontade de criar A última estrada?
Marina Abib
– O ponto de partida da nossa criação foi a história de um casal em sua jornada em direção ao mar. Esse caminho tem a ver com o momento da companhia, já que em 2012 nós tínhamos acabado de voltar de uma viagem pela Europa e Índia. Além disso, completávamos cinco anos de companhia [hoje já são 6] sempre com um desejo de criar um espetáculo que contasse uma história. Para mim, A Última Estrada possui uma direção e, ao mesmo tempo, uma tensão muito forte traduzida em imagens de culpa e opressão. O espetáculo traz o caminho e o conflito, a sensação de ser quase um abismo.

Por terem uma ligação muito próxima com o Instituto Brincante, é possível que o público já espere por uma movimentação baseada nas danças populares?
Maria Eugênia
– O nosso gesto parte dessas danças populares brasileiras, mas o desafio é sempre diluí-las ao máximo, então a pessoa que não possuir um conhecimento prévio desse vocabulário não vai identificar na nossa movimentação o caboclinho, o frevo ou o maracatu.

Além dessa bagagem das danças populares brasileiras, o que mais vocês trazem e o que foram buscar para esse espetáculo?
Maria Eugênia
– As chamadas danças populares brasileiras sempre foram a nossa base e a gente foi agregando a elas procedimentos do balé clássico, do contemporâneo e da consciência corporal. Para esse espetáculo, houve uma pesquisa mais específica feita durante uma viagem de sete meses pela Europa e Índia. A Marina foi para a dança acrobática contemporânea e eu para o teatro físico e a dança indiana Kathakali.

Qual foi o objetivo dessa viagem?
Marina Abib
– Queríamos ver na raiz algumas grandes escolas que para nós sempre foram referência, como Laban, em Londres, Odin Teatret, na Dinamarca, e Jacques LeCoq, na França. O curioso é que ao longo da viagem os dois personagens principais do espetáculo já estavam construídos intuitivamente dentro da gente.

Imediatamente após retornarem ao Brasil, vocês criaram Do papa ao (próximo) passo. Qual a relação desse espetáculo com A última estrada?
Marina AbibDo Papa ao (Próximo) Passo surgiu da vontade de mostrar às pessoas um pouco do que vimos na viagem. Foi a primeira vez que nós mesmas operamos som e luz e inauguramos uma maior interação com o público através de pequenas cenas feitas em formato de pergunta e resposta. Esse espetáculo foi o embrião de A última estrada.

Como o espetáculo foi financiado?
Mariana Abib
– Logo que a gente voltou da viagem colocamos Do papa ao (próximo) passo em vários editais e não passamos em nenhum. Fizemos uma apresentação no Instituto Brincante no estilo pague-quanto-quiser e o resultado foi bom. Foi quando um amigo nos falou sobre o Catarse, um site de financiamento coletivo. Inscrevemos o projeto de A última estrada e foi a melhor coisa que poderia ter acontecido. Conseguimos menos dinheiro do que se fosse com edital público ou patrocínio, mas o processo foi muito rico. Assim que colocamos o vídeo no ar, as pessoas já estavam envolvidas na divulgação, na produção e querendo saber sobre o espetáculo antes dele existir.

Como foi a escolha dos profissionais envolvidos no espetáculo?
Marina Abib
– Nesse processo, tivemos contato com o Cristiano Meireles, que na época integrava o elenco da peça teatral Amado, do Instituto Brincante, e o convidamos para assumir a direção do espetáculo. Além de ser músico, ator e dançarino, ele tem a sensibilidade de transitar entre essas diferentes linguagens. Ele também assina a trilha sonora do espetáculo, que inclusive é uma das contrapartidas do projeto no Catarse [o CD com a trilha sonora de A última estrada pode ser adquirido no Brincante].

Maria Eugênia – O Cristiano não só conhece o universo das danças populares, como entende o trabalho de recriação que temos com elas. A nossa dança no geral é criada em cima da música, mas nesse caso a trilha sonora veio depois, servindo como um pano de fundo, o que foi uma experiência nova para nós.

E com relação ao figurino?
Maria Eugênia
– O figurino foi criado por Eder Lopes e Sandra Santana, pessoas da área do teatro, e está ali mais para caracterizar um personagem do que para evidenciar os movimentos de dança. Nesse sentido aconteceu o mesmo que com a música: esse figurino teatral nos impôs mais características dos nossos personagens e acarretou em uma movimentação mais específica.

Gostaria que vocês contassem mais sobre a movimentação… Os ensaios para esse espetáculo incluíram quais danças?
Maria Eugênia
– Não existe uma escola que me prepare para fazer o que eu quero fazer em cena. A gente sempre vai vivendo isso junto; o espetáculo sugere a metodologia e a metodologia conduz o espetáculo. Esse é o nosso desafio maior. Organizar essa didática corporal, o nosso processo de ensaio. E nesse trabalho a gente se deu conta de que caminhamos nesse sentido. Não fixamos nada estritamente elaborado em termos de encadeamento de movimentos, mas já temos o conhecimento de por onde funcionamos corporalmente. O meu personagem tem um tipo de movimentação que é mais preciso e decupado. Já a Marina, tem uma movimentação mais fluida e de chão. Ela é um personagem masculino e eu, feminino.

Marina Abib – Para a última temporada do espetáculo no Sesc Consolação, tivemos alguns meses desde o fim do ano passado para retomá-lo. Nesse processo, resgatamos metodologias de movimento que usávamos há muitos anos, como o trabalho com imagens e objetos sempre a partir de uma sensação corporal e menos da forma precisa. Outra coisa interessante foi que elencamos características de movimento que eram importantes para nós, como concentração, olhar, precisão, soltura das articulações e modulação da energia, e as organizamos em um aquecimento que nos deixa prontas para o espetáculo. É uma dificuldade falar sobre a movimentação porque a pesquisa corporal é o nosso desafio principal e o que mais nos move.

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Como é a relação com o público nesse espetáculo?
Maria Eugênia
– Queríamos sair do formato de palco italiano por muitos motivos, mas principalmente para dar às pessoas a possibilidade de enxergar o gesto de outras maneiras. Tenho a impressão de que se a pessoa assistir A última estrada mais de uma vez, poderá ver obras muito diferentes. O nosso olhar diante do público também muda, já que a cada noite recebemos dele uma nova resposta. Esse jogo, essa tensão, é algo desafiador, mas muito instigante.

Marina Abib – No palco italiano é “o publico”, já nesse formato de plateias móveis, são “as pessoas” com seus vários humores do dia. Eu sinto que estamos nos despindo para elas de maneira que ficamos mais vulneráveis em cena, então tem esse aprendizado de permitir que as pessoas também conduzam o espetáculo sem nos deixar levar. Essa temporada foi muito rica para entendermos que no momento em que colocamos as pessoas dentro do palco, elas também fazem parte do espetáculo.

E quanto aos elementos cênicos?
Marina Abib – A autonomia sempre foi o nosso ponto de partida para a criação com as pessoas com quem trabalhamos. A iluminação foi feita pela plataforma colaborativa Goma Oficina que criou luzes mais fracas, para espaços menores e com tudo à vista. O cenário é a nossa luz e duas caixas que também servem para transportar os objetos. Podemos colocar esse espetáculo no carro, viajar com ele e ligá-lo em duas tomadas 220 volts.

A companhia tem um foco em dar aula? Como é passar para frente esse conhecimento?
Marina Abib – A gente sempre trabalhou pensando no aprimoramento da nossa movimentação e numa metodologia para pedagogia que pudesse ser transmitida para outras pessoas. A maioria dos procedimentos que a gente faz tem como finalidade que as pessoas se divirtam. Que saiam da aula felizes por terem experimentado movimentos que muitas vezes não são familiares a elas e podendo se expressar a partir daquilo.

Maria Eugênia – O importante não é aprender o passo de caboclinho, mas entender como usar a articulação daquela forma para inventar o seu próprio passo. Costumo dizer aos meus alunos: não fique preocupado em fazer igual ao moço que faz esse passo desde os 3 anos de idade, faça do seu jeito e nisso você se diverte naturalmente.

Essas pessoas que dançam pelo Brasil se autodenominam brincantes e não atores, músicos ou dançarinos. Qual a importância de ter esse referencial?
Marina Abib – A referência desses brincantes é muito importante na maneira de lidar com o nosso trabalho. Esse entendimento de brincadeira que hoje é muito associado a algo infantilizado. Nas nossas pesquisas, fomos atrás de pessoas que trabalham com isso de maneira muito séria e vimos que a brincadeira é um momento de suspensão do cotidiano, em que você está 100% lidando com as oposições da vida de seriedade e despretensão. Como fazer isso ser um todo e não polos opostos? Como transformar isso em você, numa coisa inteira? O que a gente gostaria é que as pessoas se deleitassem com o nosso trabalho artístico e que ele pudesse inspirá-las a fazer o trabalho delas bem, seja lá o que for.

Maria Eugênia – Sim, os brincantes são uma referencia muito forte dessa inteireza com que se faz as coisas. Nessa viagem que fizemos para o exterior pudemos ver que a gente tem no Brasil manifestações populares que só existem aqui. Não é que a gente precisa só fazer isso, mas vamos olhar para isso também porque a defasagem nos espetáculos de dança em cartaz é muito grande. Como que não se toca nesses elementos tão ricos e tão únicos desse contexto das danças populares? A gente viu como isso faz falta para o mundo. Chegamos a fazer espetáculos no exterior em que as pessoas ficavam muito emocionadas e não pela qualidade do nosso movimento, mas pelo que eles acessavam dentro delas. Uma estudante da Laban, por exemplo, disse que se lembrou do por quê de estar lá: pelo simples prazer da dança.

Qual é a primeira memória de dança de vocês?
Maria Eugênia
– Para mim, não tem como não ser as danças populares que meu pai levava para conhecer no Nordeste. Minha primeira referência de corpo é desse universo mesmo, o da bagunça.

Marina Abib
– Me lembro que minha mãe me levava para uma aula de dança onde brincávamos com bolas grandes e o que eu mais gostava era de pegar um tecido azul gigante e ficar fazendo umas ondas e passando embaixo e por cima. Nunca me esqueço desse momento.

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4 Responses para ““A Última Estrada”: afortunada viagem por camadas de uma história dançada”

  1. nothing

    Nathalia Rocha:

    06-20-2014 3:01

    Belo tema, bela entrevista! Parabéns Mana!

    Bjsss

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    • nothing

      deborah:

      08-21-2014 17:04

      Obrigada, Nathalia! Só agora vi sua msg, desculpe a demora em respondê-la! Bjs e volte sempre ao blog!

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  2. nothing

    Alessandra Vidotti:

    10-18-2014 20:43

    Linda a entrevista! Amei esta parte: “O importante não é aprender o passo de caboclinho, mas entender como usar a articulação daquela forma para inventar o seu próprio passo. Costumo dizer aos meus alunos: não fique preocupado em fazer igual ao moço que faz esse passo desde os 3 anos de idade, faça do seu jeito.” Significativo não?
    Grande beijo!

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    • nothing

      deborah:

      01-21-2015 11:14

      Oi Ale! Obrigada!! Sim, você pinçou uma parte muito importante do pensamento da Soma!! Boa reflexão…

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