Bravíssima flor da dança brasileira

Minha visão de dança janeiro 19, 2015 2 Comments

Mimulus Cia de DançaQueria esquecer que sei dançar para apenas dançar sem saber. Esse é um dos pensamentos que permeiam Pretérito Imperfeito, a mais recente criação da companhia mineira Mimulus, dirigida por Jomar e Baby Mesquita. O espetáculo que fala sobre a questão da memória instiga o espectador assim que ele chega no teatro, quando em um pedaço de papel que deve ser depositado em uma das urnas no palco ele é convidado a responder a seguinte pergunta: “que momento você nunca vai se esquecer?”. Em mim, a pergunta logo acionou um mecanismo de busca que trouxe à tona um sofrimento, uma experiência muito triste… Mas não. Logo apaguei essa lembrança e pensei em outra, ufa, bem mais agradável e determinante na minha vida. Ah, essa sim é pura alegria, só beleza. Será? Não, pensando bem, esse momento ainda me causa certa indigestão, especialmente agora nesse exato momento. Bem, então qual? O moço da entrada disse para não me sentir pressionada a responder e eu logo disse “não estou pressionada!”. Será? Uma pergunta assim, de repente, ui! Pronto, já sei! Vou escrever essa. Tem tudo a ver com a dança, com meu momento atual, com a própria proposta do espetáculo. Esses dias ouvi alguém dizer que ninguém jamais esquece o balanço do trem pois é algo que remete à infância…uma experiência que me levou ao encontro direto com uma dança milenar muito especial! Escrevi no papelzinho, coloquei numa das urnas que estavam na boca de cena e fiquei sentada no meu lugar apenas observando o movimento. Os meus movimentos de pensamento, o movimento das pessoas e tudo permeado por um tic-tac incessante que soava bem alto no teatro. Como se para nos alertar sobre a importância daquele momento, que já se propunha a ser uma reflexão. Vários problemas da minha vida me vieram à mente: a televisão que eu tinha que pegar depois dali, as buscas do dia sem respostas, os ensaios da semana, esse texto…e aquele tic-tac irritante não parava de me alertar sobre o tempo. Quando foi mesmo a primeira vez que a Mimulus surgiu na minha vida? Ah, sim, aquela entrevista que fiz com o Jomar Mesquita (+) por telefone no ano passado. E por quê mesmo foi que me interessei pelo trabalho da companhia? Pelo samba de gafieira…ahhh, foi tão bom aquele período no Andrei Udiloff onde dancei com meu marido! Esquecíamos de todos os problemas e aprendíamos novos passos…meia lua, faca, tesoura, puladinho 1, puladinho 2! Tudo bem que às vezes a briga saía ali mesmo em plena dança, mas c’est la vie, dançar não é só flores, é lidar com as dificuldades, transformá-las. Isso mesmo, transformá-las! Deve ser sobre isso o espetácuo, será? Mas não vai começar, não? E aí olhava as pessoas pra lá e pra cá, ocupadas em acharem suas cadeiras, desligarem os celulares, conversarem, se encontrarem, se abraçarem. Sim, o abraço! Esse também foi um momento inesquecível: aquele abraço num dia triste. Tão humano quanto o do poeta e em contraste extremo com a frieza da recusa de um abraço. Quem pode recusar um abraço? Que horror! Só a arta salva! “Danço para esquecer a barbárie humana”, pensei. Nossa, que pesado! Sim, mas é isso mesmo. Danço porque o belo é capaz de nos salvar mesmo em tempos de guerra… O belo é uma saída. O tic-tac parou e espetáculo começou. Lindo, bravíssima flor da dança brasileira! Ainda bem que fui nessa dança, pensei. Ainda bem que ele me incentivou a sair de casa sozinha, pegar o carro e sentar naquela cadeira. Se o pretérito é imperfeito, inconcluso, inesquecível, aquela dança me pareceu a sequência perfeita daqueles primeiros pensamentos. Agora que me lembrei dessa dança já posso esquecê-la.

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2 Responses para “Bravíssima flor da dança brasileira”

  1. nothing

    ana maria:

    02-05-2015 11:20

    delicadas memórias dançantes…..a transformação da dor em arte da escrita!!!

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    • nothing

      deborah:

      02-19-2015 12:11

      Oi Ana, adoro seus comentários sempre co-moventes! Obrigada!! Deborah

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