“Da cabeça aos pés”: documentário da GloboNews retrata identidade visual da dança Passinho

Café com Dança, Festivais no Brasil dezembro 11, 2013 No Comments

Uma dança que nasceu atrás das caixas de som dos bailes funks cariocas, especialmente dançado por homens prá lá de vaidosos e que mistura antropofagicamente samba, frevo, capoeira, street dance…e tudo o que entrar na roda. É o Passinho, movimento de dança composto por “batalhas” em que cada dançarino demonstra as suas habilidades ao grupo – para furor das meninas (também chamadas de Maria Passinho), que os idolatram como os novos herois dos morros cariocas. Com penteados inusitados, unhas e sobrancelhas feitas e muito ritmo nos pés, esses moleques de mola vêm fazendo um bem-vindo contraponto ao poderio dos traficantes de drogas e armas na região. “São meninos do bem”, fala Joy Ernanny, produtora do documentário “Da cabeça aos pés”, dirigido por Renée Castelo Branco, e exibido em outubro no canal GloboNews. A seguir, Joy compartilha a sua alegre experiência com o Passinho. Se liga nos bailes e nas redes sociais: é pra todo mundo dançar!

Como foi participar da equipe de filmagem do documentário “Da cabeça aos pés”? Aprendeu algum passinho?
Sou jornalista formada há apenas dois anos e nunca imaginei poder fazer parte da equipe de um documentário assim tão rápido, e sem experiência. Quando fui convidada pela Renée Castelo Branco e a Cristina Aragão, duas editoras chefes da GloboNews, para fazer parte desse equipe, sabia na hora que seria uma experiência que mudaria minha vida. Nascida e criada no Rio, antes do documentário eu só conhecia uma parte da cidade em que vivo. A parte bonita das praias, Corcovado e Pão de Açúcar. Logo no primeiro dia de trabalho, fui enviada para um subúrbio chamado Quintino Bocaiuva para fazer pesquisa de campo. Minha missão foi passar um dia dentro de várias barbearias frequentadas por dançarinos estudando o comportamento e estética. Dali para frente, frequentei vários bairros de periferia e favelas onde nunca tinha pisado e conheci pessoas incríveis que abriram o meu campo de visão e me fizeram enfrentar questões muito profundas de relacionamento humano, violência, drogas, racismo, educação, etc. Tudo isso tendo a dança como fio condutor. Respondendo à segunda parte da sua pergunta, o passinho é (para mim) uma dança super difícil! Dancei balé na infância e na adolescência, então achei que não seria tão complicado aprender, mas me enganei! Até hoje só sei o básico do básico, que vergonha!

O que é o Passinho? Coreograficamente, qual é a diferença em relação ao funk?
O passinho é uma mistura de funk, frevo, capoeira, samba, street dance, hip hop…e a lista não para! É uma dança que mexe o corpo todo, mas tem as pernas e os pés como foco – por isso o nome. Ela é dançada ao som do funk bem marcado, mas as semelhanças param por aí. O funk é uma dança bem sensual, enquanto o passinho é super agitado, movimentado e rítmico. O interessante é que é uma dança majoritariamente masculina. São poucas as mulheres que dançam – talvez pelo fato de não ser sensual.

Quando nasceu esse movimento e o que mudou até hoje?
Quando o passinho começou a ser criado, por volta de 2005, um grupo de meninos se encontravam atrás da caixa de som dos bailes funks para dançar passinho (ou “mandar passinho”, como eles falam). Era um grupeto que se encontrava ali por falta de espaço no baile. O grupo foi ganhando força, e a comunidade no Orkut foi criada. Lá, meninos das mais distantes comunidades do Rio se encontravam online para falar sobre passinho e trocar vídeos. Eles gravavam vídeos deles mesmos dançando e postavam no Orkut para os outros comentarem. Com a chegada do Youtube e Facebook, o Orkut perdeu a vez. Os meninos passaram a colocar seus vídeos no Youtube e no Facebook e começaram a reunir milhares de fãs do Brasil todo. Logo, o local atrás da caixa de som ficou pequeno para eles, e os meninos foram conquistando a pista. Em 2011, aconteceu a primeira Batalha do Passinho, onde os meninos disputavam em duelos um único vencedor. Eu acredito que essa batalha tenha sido um marco, pois oficializou/legitimou o passinho como grupo de dança. Dali pra frente o passinho ganhou força e foi “descoberto” pela mídia de massa. Foram inúmeras apresentações nos programas da Globo como Esquenta, Caldeirão Huck, TV Xuxa e por aí vai. O momento atual é de expansão para outras cidades fora do Rio, pois é um movimento tão bonito e alegre, que já está conquistando novos territórios.

Como foi a escolha dos meninos e meninas que aparecem no documentário?
Nem eu nem ninguém da equipe conhecíamos bem esse universo, então estávamos com dificuldade de encontrar bons personagens. Por isso, a GloboNews contratou o Rafael Naike e a Leandra Perfects para fazer a reportagem do documentário – eles são dois personagens ativos e participantes desse universo que poderiam não só nos ajudar a escolher os melhores, como nos fazer chegar nos dançarinos com um approach mais light/casual. O Rafael trabalha com cultura há anos e foi o idealizador, com um sócio, da Batalha do Passinho. A Leandra conheceu o passinho “por acaso” pela internet, virou moderadora da comunidade do Orkut, depois foi jurada das batalhas do passinho, e hoje é considerada pelos pioneiros da dança como a madrinha do passinho. Ela faz parte do único bonde de dançarinas mulheres, o Bonde das Perfect’s. Como eles já conheciam a fundo esse universo, nos abriram várias portas e nos levaram até as pessoas mais interessantes. Durante as entrevistas, eles falavam com os meninos de igual pra igual. A ideia foi justamente fazer um documentário de dentro pra dentro – e não de fora pra dentro como quase todos documentários são feitos.

Qual o papel das mulheres no Passinho?
As meninas das comunidades, especialmente as mais novinhas, idolatram os dançarinos como heróis, e por isso ganharam o apelido de Maria Passinho, o que é muito engraçado! Mas uma coisa importante e interessante de comentar, é que muitas dessas antigamente idolatravam traficantes, pois eram quem tinha o poder nas favelas. Com a chegada do passinho isso está começando a mudar porque eles oferecem uma alternativa a esse modelo do trafico de drogas. São meninos do bem!

Me marcou no documentário a parte em que vocês levam meninos e meninas do Passinho para dar aulas numa escola de balé do Rio. Poderia comentar essa ideia? Ela foi levada para frente?
Na verdade, essa iniciativa não foi nossa. O Theatro Municipal do Rio de Janeiro abriu vagas para dançarinos de passinho para fazerem um mês de aulas de bale clássico durante as ferias de julho. E depois da aula, os meninos davam aula de passinho para as bailarinas! Isso aconteceu justamente na época em que estávamos filmando, ou seja, perfeito porque conseguimos autorização para entrar com a câmera e filmar esse momento marcante na vida deles. Uma pena que foi só por um mês, porque eles estavam gostando muito. Mas a direção do teatro disse que está estudando uma maneira de dar continuidade ao projeto.

Algum dos meninos e meninas retratados no doc já se encaminhou para a dança profissionalmente?
Muitos tem vontade mas não sabem como chegar lá. Afinal, temos que lembrar que são moradores de favelas e bairros de periferia, e muitos precisam trabalhar para ajudar em casa. A dança não traz renda para eles, então muitos não podem optar por esse caminho e fazem do passinho apenas um hobby. Existe hoje um grupo dos melhores dançarinos de passinho chamado Dream Team que estão fazendo coreografias e se apresentando em shows – vivendo disso. Mas são poucos, só sete ou oito.

Você acredita que o Passinho seja uma alternativa ao tráfico de drogas no Rio ou só mais um modismo capitaneado pela internet?
O passinho definitivamente não é uma alternativa ao tráfico pois não é um meio de vida lucrativo. Os traficantes têm dinheiro e por isso, poder. Os dançarinos são duros! Ganham fazendo alguns shows e apresentações mas muito pouco. Eles só tem a fama e o status, mas não tem grana. Agora, se é um modismo ou não, é muito cedo para dizer. O movimento só ganhou força total em 2011, está muito recente para fazer essa avaliação.

É bastante notável a questão da vaidade e do borramento de fronteiras entre masculino e feminino no Passinho. Como o doc retrata a questão do preconceito a bailarinos no contexto dos morros cariocas?
O tema da estética foi um dos fios condutores do “Da cabeça aos pés”. A identidade visual dos dançarinos é muito forte, e para mim foi impressionante ver como dentro da favela não há preconceito com isso – só fora. Nos bairros de classe media e alta do Rio de Janeiro, ver um menino com a sobrancelha desenhada e unhas feitas é “coisa de gay”, mas nas favelas isso já virou “mainstream”. Difícil alguém que julgue ou critique.

Quem nunca ouviu falar no Passinho e quer conhecer, participar, deve fazer o quê? Tem como ver o doc “Da cabeça aos pés” na internet?
O “Da cabeça aos pés” ainda não está disponível na internet pois estamos inscrevendo o doc em prêmios e festivais. No Rio, está tendo o Baile do Passinho, patrocinado pela Coca Cola, que são festas no estilo baile funk com as musicas boas de dançar passinho. Já tiveram dois bailes esse ano e o ultimo é agora dia 14 de dezembro. Como ainda há perigo nas favelas do Rio, mesmo depois da chegada das UPP’s, a organização do Baile resolveu fazê-lo fora do morro para que qualquer pessoa possa frequentar sem medo nem preconceito. Eu já fui nas ultimas edições e é super bacana! Para quem não mora no Rio, dá para acompanhar a campanha de divulgação do Baile do Passinho pelo Facebook, Instagram e Youtube. Além disso, podem seguir os melhores dançarinos do Passinho pelas redes sociais também porque eles estão sempre postando atualizações, notificações para shows e batalhas, etc. Eles são que nem a GloboNews, nunca desligam!!

Algum outro projeto que queira citar?
O longa “A Batalha do Passinho – O Filme”, de Emílio Domingos, é muito legal! O filme conta a origem da dança, a história dos pioneiros, faz cobertura da primeira Batalha, etc. Está em cartaz nos cinemas no Rio.

 

Baile do Passinho
Dia 14 de dezembro, sábado, a partir das 18h
Acadêmicos da Rocinha
Rua Berta Lutz, 80 – Gávea/ RJ
(21) 3205-3303
www.academicosdarocinha.com.br

Topo