Dança Indiana revitalizada de Sonia Galvão

Agenda, Café com Dança, Vídeo julho 23, 2015 No Comments

Divulgação“As pessoas precisam se misturar mais.” De toda a entrevista que fiz no dia 9 de julho com a bailarina, professora e coreógrafa Sonia Galvão e que agora compartilho com vocês, a frase que mais ressoou nos meus ouvidos foi essa. Para quem não sabe, Sonia foi a grande responsável por trazer a dança clássica indiana para o Brasil em 1992 – particularmente o estilo chamado Odissi. Há 20 anos atrás, as pessoas que provavelmente haviam ouvido falar em dança indiana por aqui certamente cabiam dentro de um tuc-tuc (aqueles pequenos taxis indianos de três rodas), tamanho era o desconhecimento dessa arte milenar, invariavelmente colocada sob o guarda-chuva de “dança oriental” ou, pior, confundida com dança do ventre.
Hoje a coisa mudou de figura: muitos bailarinos desenvolveram-se nessa arte, alguns deles abrindo suas próprias escolas de Odissi e de outras danças clássicas indianas como o Bharatanatyam, o Kuchipudi e o Kathak. E o que é mais importante: respeitando sua essência.
Um orgulho para Sonia, que no auge dos seus 30 anos de idade enfrentou enormes desafios para fazer brotar num solo desértico sul-americano essa linda flor do oriente, tão encantadora quanto rústica. Entre outras bençãos, Sonia teve o privilegio de conviver de perto e muito intensamente com o grande gênio da dança Odissi na Índia, o guru dos gurus Kelucharan Mohapatra, principal responsável por resgatar o estilo e alçá-lo à condição de dança clássica. Uma experiência e tanto que ela compartilha conosco nessa entrevista. Mas apesar de tudo isso, ainda falta comunicação entre os profissionais do ramo pela continuidade e desenvolvimento dessa tradição milenar numa terra exuberante que como escreveu Caminha “em se plantando tudo dá”. Será?
Voltando às aberturas…é nesse contexto que se deve compreender a frase inicial desse texto proclamada por Sonia. Se as pessoas (bailarinos, professores, produtores, figurinistas, músicos…) precisam se misturar mais, é porque em alguma instância estão fechadas. E por quê isso acontece? Em nome do quê ou de quem? Seria algum entendimento deturpado dessa arte tão sagrada…? Ou seria enfim a falta de disposição mesmo para um pensamento dançante…aquele que abre espaços, cavuca, cria, busca outros mundos, que é empoeirado – e não empoleirado! -, que atiça, anima e vamos pra frente que atrás vem gente? E aqui me recordo de uma frase que li em Cuba: “Hay que bailar todos los días, aunque sólo sea con el pensamiento”. A dança é a expressão mais primitiva do pensamento livre. Vamos praticar!
De algum modo, ao pensar em Sonia Galvão, penso no período de redemocratização da dança brasileira tão sonhada e vivida pelos incríveis profissionais que surgiram nas décadas de 70 e 80 em São Paulo. Penso, claro, em Ivaldo Bertazzo, mestre de muitos – meu com certeza – e também o de Sonia, como vocês verão na entrevista…e em Madhavi Mudgal, uma das primeiras imagens de dança indiana que vi ainda na adolescência…com todo mistério insinuante que uma imagem dessas evoca em uma garota de 15 anos. Portanto, pensar (e dançar) com Sonia Galvão hoje é poder ver realizado o pensamento de uma dança plural, livre e criativa. Um sagrado que está mais no plano do humano.
Como alguns já sabem, participo com outros 6 bailarinos (Bárbara Malavoglia, Cíntia Kawahara, Erika Strauss, Fernando Felipe, Irani Cippiciani, além da própria Sonia) do elenco do espetáculo “Mangalam, nos passos do Guru”, sua mais nova criação que estreia nos dias 31 de julho e 1 de agosto na Funarte, em São Paulo (+). E tenho o maior orgulho em fazê-lo pois trata-se de mais uma iniciativa desta coreógrafa inventiva, sempre disposta a aclimatar a sofisticação e a dramaticidade próprias das danças indianas por aqui, caso de “Com-Fluência”, “Guru Dakshina” e “Chintz”.
Mangalam, que significa começo auspicioso, não vai ser apresentado no fim deste mês à toa. Não se enganem! Tudo na Índia tem um significado…trata-se da época do Guru Purnima, um festival celebrado mundialmente na lua cheia (purnima) do mês Ashadha (entre julho e agosto), de acordo com o calendário hindu. No espetáculo, alguns dos já citados estilos de dança clássica indiana são colocados, cada um a seu modo, no mesmo balaio, um saudando o outro numa balada animada. O resultado é poderoso.
Não se trata, portanto, de auto-promoção, mas de uma oportunidade de dialogar com uma bailarina incansável e que nos ensina a atravessar com tranquilidade e coragem os oceanos de nossa própria ignorância em direção aos encontros dançantes. E não é isso, afinal, mangalam? O início de uma travessia afortunada? Que assim seja! Aproveitem. 

MANGALAM – NOS PASSOS DO GURU
Dias 31/7 e 01/08
Sexta-feira e sábado, às 20h
Local: Funarte - Alameda Nothmann, 1058
R$ 20,00 (inteira) e R$ 10,00 (meia)
Ingressos na bilheteria 1h antes do espetáculo

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