Mimulus Cia de Dança: inovação que floresce dos bailes de gafieira

Agenda, Café com Dança, Escolas, Escolas em Minas Gerais janeiro 25, 2014 No Comments

O fio que me conectou à Mimulus Cia. de Dança foi o samba de gafieira, gênero de dança de salão que há muito me encanta por seu mix de elegância e sensualidade e que agora começo a aprender, emendando aos poucos um passo no compasso do outro. O Andrei Udiloff, professor e dono da escola de mesmo nome na Vila Madalena, foi quem me contou sobre a Mimulus, uma companhia de dança mineira nascida da dança de salão e que desenvolve um trabalho de excelência em Belo Horizonte desde os anos 1990. A sonoridade desse nome já tinha tilintado nos meus ouvidos, mas nunca imaginei que ele tivesse o pé nessas danças tradicionais brasileiras, latinas e europeias. Fiquei curiosa e em pouco tempo estava conversando com o Jomar Mesquita pelo telefone, o diretor artístico da companhia. Uma ótima conversa que compartilho com vocês na entrevista a seguir. Tentem ler até o fim – tem muita coisa bacana. E para os mais animados, vale clicar no banner da lateral do blog: é a última chance de participar dos cursos de férias do Espaço de Dança Andrei Udiloff. Corre lá!

Quando foi criada a Mimulus Cia. de Dança?
No fim década de 1980, os meus pais (um advogado e uma psicóloga pedagoga) começaram a dar aulas de dança de salão como hobby em Belo Horizonte. O ensino desse gênero de dança dava os primeiros passos no Brasil. O negócio se desenvolveu e, em 1990, minha mãe, Baby Mesquita, fundou a Escola Mimulus Dança de Salão, na época a primeira de Minas Gerais especializada no gênero.

Qual o significado desse nome?
Mimulus é o nome de uma flor. Na terapia dos Florais de Bach, ela é associada à coragem, já que o medicamento produzido a partir de sua planta é comumente indicado contra a timidez. Consideramos que a dança tem esse efeito desinibidor na vida das pessoas.

Como a dança entrou na sua vida?
Eu sou formado em engenharia mecânica, mas sempre fui apaixonado pela dança. Já nessa época, os estereótipos existentes na dança de salão me incomodavam. Eram sempre as mesmas roupas, as mesmas músicas e os mesmos passos. Com isso tudo, eu comecei a experimentar coisas diferentes e ao mesmo tempo a buscar outras técnicas de expressão que pudessem me auxiliar, como o balé clássico e a dança contemporânea, o teatro e o circo. Em 1992, formei um primeiro grupo experimental com crianças e adolescentes da escola…

Era o embrião da Mimulus Cia. de Dança?
Sim. Nesses 22 anos, desenvolvemos uma linguagem nova dentro da dança de salão (alguns críticos chamam de dança de salão contemporânea, mas essa denominação não me importa muito). Começamos a fazer um trabalho mais voltado para a transposição da dança de salão para o palco de uma forma artística e não somente como entretenimento. Somos considerados hoje a única companhia profissional estável especializada nessa técnica.

O que muda quando você leva a dança de salão para o palco com esse pensamento?
Muda muita coisa e, inclusive, muitas vezes é uma propaganda contra a escola. Na verdade são dois trabalhos independentes… A partir de 2000, fundamos a Associação Cultural Mimulus que passou a desenvolver os projetos de lei de incentivo e a levar adiante a companhia de dança. Mas apesar de continuarmos funcionando no mesmo espaço físico, são duas empresas separadas. Então, o que a gente leva para o palco não é necessariamente o que é ensinado na escola. Na escola a gente também tem um curso de qualificação de dois anos voltado para pessoas que queiram se profissionalizar com essa técnica, porém com foco nas danças tradicionais, enquanto que no palco o que está sendo apresentado é uma releitura, uma desconstrução dessas danças de salão.

Conta um pouco sobre esse curso de qualificação…
É o Curso de Qualificação em Criação, Ensino e Produção em Danças de Salão que busca acrescentar algo mais na formação desses profissionais que queiram se especializar em uma dessas três áreas. Tem duração de dois anos, professores muito bons e diversas disciplinas, como as de dança (danças brasileiras, portenhas, caribenhas, europeias), produção cultural (gestão cultural, projetos), criação (iluminação, cenografia, composição coreográfica, história do movimento), e ainda ensino (psicologia, pedagogia, práticas de ensino e metodologia…). Estamos com as inscrições abertas para uma nova turma prevista para iniciar em março.

Qual a agenda da companhia para os próximos meses?
Semana que vem iniciamos uma turnê do espetáculo Dolores pela Europa, em que passaremos por cidades na França e Holanda, e em seguida retornaremos a Belo Horizonte, onde apresentamos Por um fio no Cine Theatro Brasil Vallourec, nos dias 15 e 16 de fevereiro.

Qual o tema de Por um fio?
Por um fio
estreou em 2009 e é um espetáculo inspirado na vida e obra de Arthur Bispo do Rosário, artista plástico que viveu quase toda a sua vida num centro de tratamento psiquiátrico por conta da esquizofrenia e que teve reconhecida a sua obra já no final da sua vida, principalmente depois de morto, e que hoje é considerado um gênio das artes plásticas no mundo todo.

Por quê o título?
O espetáculo chama-se Por um fio porque Bispo do Rosário trabalhava principalmente com bordados e costuras em suas obras. O título é inspirado também na questão da loucura…a linha tênue entre realidade e delírio. Fizemos uma extensa pesquisa nesse sentido.

Como é a escolha da trilha sonora de Por um fio?
A trilha sonora é bem variada, vai de Zeca Baleiro a Chopin, Carlos Careqa e Camille, que é uma cantora francesa…

Conheço…
Nos inspiramos no CD Le Fil (o fio, em francês), em que um som permeia todas as canções. Usamos esse som em toda a trilha sonora que é como um fio que perpassa todo o espetáculo. Apenas ao final esse fio sonoro é interrompido…algo que nos remete à questão da esquizofrenia. A intenção é causar um incômodo no espectador.

E Dolores?
Dolores estreou em 2007 e é inspirado no universo de Almodóvar, nos temas polêmicos que ele costuma abordar nos seus filmes, como o tema materno. O espetáculo tem uma participação especial de uma mãe que é uma surpresa… Nesse semestre, ainda levaremos Dolores aos Estados Unidos para uma temporada um pouco mais longa em Nova York e um festival no Arizona.

Como é trabalhada a dramaturgia nos espetáculos da companhia?
A dramaturgia em dança se dá de maneira muito mais sensorial do que racional… Em Dolores, cada bailarino desenvolveu um personagem inspirado nos personagens de Almodóvar. No caso de Por um fio, trabalhamos muito essa questão do doente mental, da alucinação e da mulher como símbolo da pureza e da vida casta. Portanto, a questão da sensualidade na dança a dois é tratada de maneira diferente. Por um fio contou com a assessoria cênica da atriz e professora Ana Domitila, do Grupo Galpão, que trabalhou a questão da interpretação dos oito bailarinos que integram o elenco.

Como se dá o processo criativo dos espetáculos?
Nossos espetáculos são criações coletivas, eu faço a direção, a coreografia é dividida entre os bailarinos, o nosso cenógrafo, Ed Andrade, participa muito dessa criação, a figurinista, que é a minha mãe juntamente com uma das bailarinas (Juliana Macedo) participam da criação e da produção também, o iluminador, que é o Rodrigo Marçal, também…um está sempre dando palpite na área do outro, o que faz com que no fim das contas essas diversas áreas dialoguem e cheguem no palco de uma maneira harmônica.

Mais uma boa família mineira na dança…
Sim…

Quais os próximos projetos em vista?
Em março, começamos os ensaios para o espetáculo novo que tem estreia prevista para o segundo semestre. Estamos no momento inicial de pesquisa de movimento…

Pode adiantar algo?
Não, tudo está em aberto ainda. Temos um convite do Teatro Alfa para a fazer estreia do espetáculo na Temporada de Dança desse ano. Outra possibilidade são os Sescs de São Paulo. Em breve estaremos na capital paulista…

Por fim, gostaria que você comentasse o surgimento da gafieira no Brasil, já que é a dança que venho praticando ultimamente…
Gafieira na verdade é o nome do local onde essa dança nasceu e se desenvolveu. A maneira correta de se referir a esse gênero de dança, no entanto, é samba de gafieira. Gafieira é o grande berço das danças de salão no Brasil, não somente do samba, mas também do bolero, cha-cha-chá, rock e etc.. Ela surge como um local onde os negros puderam desenvolver suas músicas, danças e manifestações culturais após a abolição da escravatura, buscando serem aceitos no meio urbano, majoritariamente branco e segregador das grandes cidades. Esses locais passaram a ser frequentados por pessoas de todas as classes sociais justamente por sua característica democrática. Era um local onde todos podiam ser aceitos desde que estivessem lá para dançar, e é por isso que existiam regras muito rígidas – a maneira de se vestir, de se comportar e de dançar…

A palavra tem qual significado?
Ha controvérsias, mas ao longo da história um jornalista comentou que naqueles locais conhecidos como “clubes recreativos” eram cometidas muitas gafes…essa seria uma das explicações para o surgimento dessa palavra.

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